“Está no bom caminho para que seja desta”. A esperança feita convicção é de Telmo Silva, um dos muitos produtores de arroz do vale do rio Pranto há três décadas à espera que avance a obra de aproveitamento hidroagrícola do Baixo Mondego naquela zona. E pode mesmo ser desta. É que, finalmente, existe a indispensável e decisiva componente financeira: uma candidatura ao Programa de Desenvolvimento Rural (PDR) 2014-2020, na ordem dos 25 milhões de euros, foi aprovada, tornando possível a sua concretização.

O relançamento do regadio do Baixo Mondego teve direito a sessão com perto de três centenas de agricultores e proprietários, e a presença do ministro da Agricultura, Florestas e Desenvolvimento Rural, Capoulas Santos, no passado sábado (25), no Palace Hotel Termas do Bicanho, no concelho de Soure, um dos municípios mais beneficiados pelos apoios à reabilitação e modernização de regadios do programa nacional que o governo quer ver concluído até 2023.

Depois de concretizada a obra no vale central do rio Mondego, há muito que se aguarda igual intervenção nos vales secundários, na margem esquerda, nos efluentes Pranto, Arunca e Ega. O primeiro passo será dado com a modernização do regadio, agora precário, do vale do Pranto (montante), nos concelhos de Soure (freguesias de Samuel e Vinha da Rainha), Pombal (Louriçal) e Figueira da Foz (Alqueidão e Paião), numa área de cerca de 700 hectares.

A candidatura alvo de financiamento, designada Pranto I, inclui as construções do adutor direito do Pranto, distribuidor de Marnoto, açudes de Casal da Rola e Casenho, redes secundárias de rega, drenagem e viárias e, por fim, implementação do projecto de emparcelamento.

“Agrupar os terrenos é fundamental, porque as propriedades são pequenas, muito retalhadas e há locais onde as máquinas quase não dão a volta com valas de um lado e de outro”, refere ao TERRAS DE SICÓ Telmo Silva, assegurando que proprietários e agricultores estão disponíveis para que o emparcelamento avance.

A dupla função das valas e do rio – rega e drenagem – é uma das maiores dores de cabeça dos orizicultores do Pranto, uma vez que obriga a uma difícil coordenação entre todos. “Quando precisamos de drenar um canteiro temos de drenar o campo de todos os agricultores, enquanto com esta obra cada agricultor o pode fazer sem estar dependente dos outros”, realça aquele produtor de arroz, convencido que “é desta”.

Menos certeza tem José Pinto. Produz anualmente 150 toneladas de arroz e com o regadio e o emparcelamento a quantidade poderia aumentar, mas “não sei se vai ser desta, porque já anda há 30 anos para ser feito”.

A obra hidroagrícola fará baixar os custos de produção, entende António Alves, com 10 hectares no vale do Pranto, onde a colheita “vai dando para viver”. “O adutor é fundamental para ter água e não haver também tanto desperdício”, regista em tempo de seca.

Para a Associação de Beneficiários do Baixo Mondego (ABBM), que lidera o processo de execução da obra, “o desafio é muito grande”, considera o seu presidente António Ferreira de Lima, contudo, disponível para também encabeçar as intervenções seguintes, entre elas nos vales do Arunca e Ega, mas também Pranto (jusante), Quada, Lares e Foja.

“Não há nada que impeça o projecto de avançar”, refere o presidente da Câmara de Soure, Mário Jorge Nunes, convicto que o novo impulso leve, por fim, à conclusão da obra hidroagrícola na margem esquerda, Arunca e Ega incluídos.

“Este território que se situa na bacia do Mondego não deve ser abandonado enquanto exploração agrícola, porque o risco é de uma iminente desertificação, tornando-se um espaço pantanoso e insalubre como já foi outrora”, alertou o autarca perante Capoulas Santos.

O ministro, por seu lado, anunciou que o governo vai assinar em Dezembro contratos de financiamento com dois bancos europeus que asseguram os 260 milhões de euros necessários à conclusão do programa nacional de regadios nos próximos anos, pelo que deixou o “desafio” para que até ao final da próxima legislatura todo o empreendimento de regadio do Baixo Mondego, que diz conhecer bem, esteja concluído, o que obrigará a “muito trabalho e persistência”.

Capoulas Santos defendeu a aposta no regadio “pela riqueza e produtividade que a água propicia, mas também para responder aos desafios das alterações climáticas”.