O Município de Soure vai criar um fundo de acção social para ajudar os bombeiros do concelho, com vista a contribuir para que estes “se sintam mais motivados para o esforço que dedicam à sociedade”. O anúncio foi feito pelo presidente da autarquia, Mário Jorge Nunes, na sessão solene comemorativa do 127.º aniversário da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Soure, que decorreu no passado dia 19 de Novembro. A cerimónia ficou ainda marcada pela bênção de seis viaturas, bem como pela condecoração de 18 operacionais com medalha de assiduidade e dedicação por 5, 10, 15 e 20 anos de serviço, de nove elementos com medalha de serviços distintos por mais de 25, 30 e 35 anos e a entrada de 20 novos bombeiros para o quadro activo.

“Vou propor ao executivo que a Câmara Municipal financie um conjunto de apoios através de um fundo de acção social para os Bombeiros Voluntários de Soure, que seja financiado com recursos municipais”, revelou o autarca, adiantando que pretende que “este fundo seja alimentado com 50 por cento da derrama das empresas do concelho e com 50 por cento do IMI pago pelos bombeiros proprietários”.

“Esse fundo visa acima de tudo fazer acção social para os bombeiros, como seja subsidiar as propinas dos elementos do corpo activo que frequentem o ensino superior, apoiar despesas médicas e seguros de saúde e apoiar o arrendamento ou melhorias na habitação própria dos bombeiros mais carenciados”, informou Mário Jorge Nunes, consciente que estes apoios “não são nenhuma novidade”, pois “há municípios que já fazem acção social com os bombeiros”. “Estamos apenas a encontrar um mecanismo financeiro que parte do esforço sai dos próprios bombeiros através do valor de IMI que pagam e a outra parte sai das empresas do concelho”, referiu o edil, salientando que “estas propostas podem não ser definitivas, mas são um alerta para os bombeiros, para a sociedade e para os responsáveis políticos de que é possível continuar a ter esperança, criando mecanismos com formas criativas de financiamento para responder ao dinamismo, criatividade e empreendedorismo destas associações”.

À semelhança dos bombeiros, a Associação Humanitária também recebeu alguns presentes no seu aniversário. No total, foram benzidas seis novas viaturas, “algumas das quais permitem à corporação aumentar as suas valências para fazer face a novas preocupações”, regozijou-se o presidente da Câmara, referindo-se à “recolha e tratamento de animais, sobretudo dos domésticos e abandonados”. Com vista a capacitar os bombeiros para lidar com esta nova valência, a autarquia prevê ainda “financiar formação ao nível veterinário”.

Além do carro para resgaste de animais, a corporação recebeu também uma nova viatura de combate a incêndios, bem como veículos de comando, apoio logístico, salvamento aquático e abastecimento de combustível. “Temos um conjunto de compromissos assumidos de cerca de duas centenas de milhares de euros para estes equipamentos”, realçou Mário Jorge Nunes, consciente de que “não são suficientes e todos os anos será necessário reforçar os mais diversos meios”.

 

“Não gosto”

 

O presidente da direcção da Associação Humanitária, Helder Carvalho, enumerou os factos de que gosta e não gosta, concluindo que “os gostos são mais que os não gosto, mas tudo mercê da entrega do corpo activo e do comando, dos meus órgãos de direcção e demais corpos sociais, dos colaboradores, do município, das juntas de freguesia, dos associados, dos beneméritos e dos apoios particulares de muita gente anónima”. O presidente da Liga dos Bombeiros Portugueses, Jaime Marta Soares, ouviu atentamente e garantiu que vai “trabalhar para resolver os não gosto”.

“Não gosto de constatar o atraso com que nos pagam as instituições que servimos diariamente, especiamente os hospitais”, começou por referir aquele dirigente, salientando que “por arrastamento não conseguimos pagar em prazos mais reduzidos”.

Mas a insatisfação de Helder Carvalho não ficou por aqui. “Não gosto da subalternização com que os nossos bombeiros são tratados pela tutela, sendo eles o principal braço armado da protecção civil”, continuou, queixando-se ainda da “não actualização dos montantes pagos pelo INEM”, “da impossibilidade de renovar a viatura de emergência médica”, “das anunciadas medidas para a protecção civil no que aos bombeiros respeita”, assim como “da lei de financiamento das associações e dos cortes verificados”.

Por sua vez, o comandante João Paulo Contente considerou que é preciso “repensar a política do dispositivo e do socorro em Portugal”, porque “os bombeiros fazem a diferença todos os dias do ano”. Aquele responsável alertou ainda para o “reforço dos GIPS da GNR em cerca de 500 militares” quando há “dificuldades de efectivos nos postos territoriais”, questionando “se não estão a inverter os papéis”. Posto isto, João Paulo Contente defende que “precisamos de alguém que nos represente, que sinta o que sentimos e que lute pelos interesses colectivos dos bombeiros portugueses”.

 

“Ilegalidade grave”

 

Ora, lutar pelos interesses colectivos dos bombeiros portugueses e denunciar situações irregulares é o que tem feito o presidente da Liga dos Bombeiros Portugueses, Jaime Marta Soares, que aproveitou a cerimónia de aniversário dos Bombeiros de Soure para denunciar “uma ilegalidade grave” da Autoridade Nacional de Protecção Civil (ANCP), que “está a utilizar os bombeiros para transportar água gratuitamente” nalguns municípios do distrito de Viseu, “para a Águas de Portugal estar a beneficiar com a venda dessa água”. “Isto porventura é admissível? Poderá o presidente da Liga calar-se perante uma atrocidade destas?”, questiona aquele responsável, assegurando que “não pode, por isso vai utilizar todos os meios ao seu alcance, pedir uma auditoria ou um inquérito para apurar essa ilegalidade grave”.