Falar do património natural de Sicó é quase um cliché, em boa medida culpa dos actores de desenvolvimento territorial que, de forma repetida, têm invocado de forma vã e inconsequente o termo “património”. O património desta bela região tem sido quase que apenas um mero refém dos desejos de alguns tecnocratas e dos interesses organizados, factor determinante para o atraso que se constata no domínio da valorização do extenso e diversificado património natural da região de Sicó. E o curioso disto é que muitos de nós conseguem fazer um diagnóstico genérico acertado, muito embora nos fiquemos por aqui. A solução, essa há-de surgir num dia de nevoeiro. Se não evoluímos nos últimos anos? Sim, evoluímos, mas pensemos no que poderíamos ter evoluído... Somos levados a crer que avançámos muito, quando afinal andámos poucos metros.

A sociedade sicoense não impele os seus cidadãos para o consenso, prevalecendo a lógica das capelinhas, onde quem não estiver numa estrutura inserida na dialéctica do poder é logo visto com desconfiança e, por vezes, rotulado como indesejável q.b.. O despertar da cidadania está para acontecer, tal como provaram os recentes orçamentos participativos da região de Sicó. Como poderemos então encetar as necessárias reformas, que visem a protecção, a valorização e a divulgação do património de Sicó? Mas o que é afinal o património natural? A noção de património natural é complexa e varia de pessoa para pessoa, bem como das suas vivências. Aldo Leopold um dia referiu na sua notável obra “Pensar como uma montanha”, que “só poderemos ter uma atitude ética em relação a alguma coisa que podemos ver, sentir, compreender, amar...”. Mas como é que os sicoenses podem ver o património que têm, mas não sabem que têm? Um exemplo básico, Sicó tem várias pegadas de dinossáurio e com pleno conhecimento das entidades públicas. Porque é que noutros países este património rende divisas e em Sicó não? Como podemos sentir algo que desconhecemos, já que facilmente confundimos a relação elementar homem-terra com engenhocas e intermediários, tal como Aldo Leopold muito bem referiu há muito? Alguém conhece, na prática, os valores naturais do Sítio Sicó/Alvaiázere, Rede Natura 2000? Porque é que nos países que tanto gabamos a RN2000 rende divisas e aqui não? Já pararam para reflectir sobre isto?

A educação facultada pelo sistema de ensino tem-nos afastado da Natureza, facto consubstanciado nas raras saídas de campo, onde os alunos têm o melhor manual de todos. Como poderemos então compreender e amar o que nos rodeia? É complicado, mas possível, haja bons intérpretes e vontade colectiva para realizar tal feito. O conhecimento existe, falta “apenas” a vontade.

Sicó possui um património natural extraordinário, biodiversidade e geodiversidade, contudo têm-nos formatado para crer que a conservação da natureza não é compatível com o desenvolvimento. O paradigma, o estereótipo e o preconceito têm os dias contados, cabe-vos decidir quando isso irá acontecer.

 

João Paulo Forte

Geógrafo