Estão prestes a iniciar-se as habituais Festas de Santa Cristina em Condeixa. Será talvez oportuno recordar quem era esta Santa e os motivos que influenciaram a escolha do seu nome para padroeira da vila.

 

Diz a lenda que Cristina era filha de um oficial romano do exército da Toscânia. Tendo abraçado a fé do cristianismo, Urbano, seu pai, rude perseguidor dos cristãos, mandou que a chicoteassem. Não tendo demovido a crença de sua filha, ordenou que que lhe prendessem uma pesada pedra de moinho ao pescoço e a lançassem a um lago. A grande mó flutuou e Cristina salvou-se. Urbano, apoplexo com tais acontecimentos, morreu subitamente. Mas Diu, seu sucessor, continuou o martírio de Cristina e só após ter sido trespassada com várias setas é que sucumbiu, tendo assim alcançado a glória eterna. A jovem virgem toscana morreu no ano de 300 d.C., passando ao Calendário Martiriológico Romano como Santa Cristina.
Condeixa é terra de muita água. Embora não possua rios de grande caudal, está implantada nas faldas de montes de pouca altitude, que fazem parte do maciço rochoso das serras de Sicó. Daí, através de linhas subterrâneas, a água tem exsurgências significativas em Alcabideque, Arrifana/Salgueiro e em muitas fontes e grutas. A configuração geográfica da zona, de pequeno desnível, também permite a lenta condução das águas em direcção à foz, criando condições para a montagem de engenhos hidráulicos de moagem de cereais, uma indústria que durante séculos se manteve produtiva.
Uma das profissões mais activas, naturalmente, era a de moleiro. Facilmente se entende que a escolha para padroeira da Vila, tenha sido Santa Cristina.
Este ano e como tem sido costume de há algum tempo, vão realizar-se as Festas de Santa Cristina, evento profano/religioso de grande importância.
No entanto, nem sempre foi assim. Duas grandes festas religiosas marcaram desde tempos longínquos, a vida da vila: a Procissão do Senhor dos Passos e a Procissão de Nossa Senhora da Conceição. A Procissão de Passos, ainda continua a realizar-se com a pompa e circunstância devida. Pena que o mesmo não aconteça mais regularmente, com a Procissão da Sr.ª da Conceição!
Quanto a Santa Cristina, terá existido na Igreja Matriz uma sua linda imagem em pedra policromada, com capela própria, mas quando o templo foi incendiado pelas tropas napoleónicas, essa imagem desapareceu.
Segundo um documento que me foi cedido por pessoa amiga, em 1952 foi constituída uma comissão destinada a adquirir uma nova imagem de Santa Cristina. Depois de inúmeras diligências, ficou decidido encomendar à firma Maias Irmãos,Lda, do Porto, a imagem “...representada com uma corda ao pescoço, presa a uma roda, untada em azeite com que foi ateado fogo, com duas setas na mão esquerda e a palma do martírio na mão direita, feita em madeira de cedro do Brasil, trabalho artístico com fina pintura, com 1,50 metros de altura, tem o preço de 5.500$00...”.
Porém a obra acabou por ser adquirida por 5.200$00,verba que foi conseguida através de donativos vários, inclusivamente de condeixenses a viver no Brasil.
Estava prevista a chegada a Condeixa da santa imagem a tempo de ser colocada na sua Igreja, mas percalços de ordem vária viriam a impedir que tal sucedesse. Assim, a comissão organizadora mandou imprimir na tipografia da vila, a seguinte circular informativa:


"SANTA CRISTINA, PADROEIRA DE CONDEIXA"
“Na impossibilidade de levar a efeito, com o projectado brilhantismo, a festa de SANTA CRISTINA, em virtude da escultura só agora ser recebida, comunica-se que a Veneranda Imagem será benzida na Capela do Palácio Sotto Mayor, às 8 horas da manhã do dia 24 do corrente (sexta-feira, 24/Julho/1953),cerimónia que é seguida de missa rezada. Às 20,30 horas desse mesmo dia, organizar-se -á uma grande procissão conduzindo a Padroeira de Condeixa à sua Igreja Matriz, acompanhada pelas autoridades locais. Convidam-se todos os condeixenses a assistir a estas cerimónias e pede-se aos moradores das ruas Francisco de Lemos, Lopo Vaz, Regeneração e Praça da República para engalanarem e iluminarem a frontaria dos seus prédios. Logo após a entrada da Veneranda Imagem no templo paroquial, anunciada por repique de sinos e de uma gigantesca girândola de foguetes, haverá sermão pregado por notável orador.
A Comissão.”

E assim se criou a tradição da Procissão de Santa Cristina!

 

Cândido Pereira