O novo presidente da Câmara Municipal de Ansião, António José Domingues, considera que é preciso apostar no “desenvolvimento económico” e na “fixação de pessoas” para conseguir “projectar um território com futuro” e que seja “uma referência a nível regional”.

 

TERRAS DE SICÓ (TS) - Está há pouco mais de um mês à frente da autarquia. Quais são as suas prioridades para este mandato? E quais os principais problemas de Ansião que gostava de ver resolvidos?

ANTÓNIO JOSÉ DOMINGUES (AJD) - Os problemas essenciais que o concelho de Ansião devia trabalhar e empenhar-se seriamente é o desenvolvimento económico e a fixação de pessoas, porque estes territórios ditos do interior debatem-se com um problema que é a desertificação. Esta é uma questão recorrente, que foi falada durante a campanha eleitoral, quer por mim, quer pelo outro candidato, até porque só podemos projectar um território com futuro se tivermos pessoas. Daí que o grande objectivo seja tentar potenciar o Parque Empresarial do Camporês, criando condições para haver investimento de empresas que fixem pessoas. Como disse, este tema é recorrente, andamos há 20 anos a falar nisso e acabamos por constatar que ano após ano estes territórios perdem pessoas. Por isso, o grande objectivo é sermos capazes de diferenciar e de colocar o território atractivo, por forma a que, a pouco e pouco, consigamos captar investimento, mas também criar condições em termos fiscais com uma política fiscal diferenciadora que possa fixar as pessoas.

Acho que Ansião tem todas as condições para ser um concelho que marque a diferença no contexto regional, quer pela própria localização geográfica onde se insere, quer pelas suas condições naturais, contudo temos de dar um impulso muito importante na cultura, de forma a tornar Ansião numa referência a nível regional, para que possa também captar a visita de pessoas.

Depois é importante potenciar o turismo, promovendo os produtos endógenos e afirmando o território turísticamente naquilo que é o eixo da romanização. Temos no nosso território o Complexo Monumental de Santiago da Guarda que precisamos de promover, divulgando-o nos operadores turísticos e integrando-o numa rota turística que seja conhecida por todos.

Essencialmente tem a ver com diferenciar o território por via do desenvolvimento económico, do turismo e da cultura.

TS - Estamos da recta final do ano 2017. Quais as principais linhas de intervenção do orçamento para 2018?

AJD – Para o próximo ano, em questões mais objectivas e próximas, temos de colocar no terreno todos os projectos do anterior executivo e que foram candidatados ao Portugal 2020, porque também eles irão contribuir de alguma forma para tornar o território mais competitivo.

Falo essencialmente da ampliação do Parque Empresarial do Camporês, que nesta estratégia de desenvolvimento é muito importante, tal como é importante que esse processo fique definitivamente fechado, porque ainda há algumas questões a tratar relativamente ao projecto, essencialmente com a Infraestruturas de Portugal no que se refere às acessibilidades. Este projecto está dependente de uma rotunda ou um nó de ligação (a última situação que está em cima da mesa), fundamental para esta última fase do projecto que incide sobre a parte norte do Parque Empresarial do Camporês, pelo que não faz muito sentido estarmos a construir outra fase tendo ali um constrangimento do IC8, que neste momento não cria as melhores condições de acessibilidade ao Parque.

Outro projecto que penso que é importante em termos de desenvolvimento é o da eficiência energética, com a substituição de todas as luminárias do concelho por leds. É um projecto que ainda está em fase de concurso, por isso é importante terminá-lo e candidatá-lo, porque permite ao município alguma poupança com as despesas de consumo energético.

Para além disso, irei fazer verter no orçamento para 2018 algumas das nossas linhas gerais que levei a sufrágio e que apontei como importantes aos eleitores, nomeadamente na vertente social. Penso que é importante implementar um sistema de apoio social multidisciplinar integrando vários profissionais ligados à área da saúde e da assistência social, de forma a criar uma equipa próxima das pessoas. Afinal não podemos esquecer que a nossa população é idosa e que nem sempre tem condições de recorrer ao Centro de Saúde, pelo que esse apoio e essa proximidade são muito importantes.

No próximo ano iremos também focar-nos na cultura, onde pretendemos fazer mais e melhor em termos da programação cultural do município, para darmos a tal dimensão ao concelho para atrair outro público e não confinar apenas à nossa população.

Depois iremos apoiar as juntas de freguesia de uma forma mais robusta, ou seja, vamos aumentar a dotação financeira responsabilizando também as juntas de freguesia nalgumas áreas que até agora não era comum.

TS - O desenvolvimento económico é uma das grandes prioridades deste executivo. Que iniciativas tem delineadas para captar mais empresas e investimentos para o concelho?

AJD - É minha intenção criar um Gabinete do Empreendedor com alguém conhecedor da área empresarial e do investimento, por forma a que, directamente comigo, consigamos criar condições para podermos vender o território, ou seja, apresentar o concelho tentando criar algumas sinergias que façam com que os empresários conheçam a realidade de Ansião e se interessem em investir aqui. Evidentemente que isto estará um pouco dependente da conclusão da terceira fase de ampliação do Parque Empresarial do Camporês, porque neste momento os espaços estão todos vendidos, contudo há alguns cujos investimentos estão pendentes. Neste momento, o Parque está praticamente esgotado, há apenas essas situações que o município está a perceber se continua a haver interesse ou terá de haver reversão dos terrenos.

TS - Para assegurar e atrair empresas e investimentos é importante garantir incentivos financeiros e fiscais para as empresas. Que medidas estão previstas neste campo?

AJD – Vamos manter os apoios que já estão regulamentados no que se refere à aquisição dos terrenos. Por outro lado, foi aprovada a redução da derrama de 1,5 para um por cento, o que significa já um sinal para os empresários no sentido de conseguirem tirar aqui algum ganho que possa também ser um factor positivo de investimento em Ansião. Em 2012, o município viu-se obrigado a implementar a derrama, mas chegados a esta fase em que a Câmara Municipal acaba de ver suspenso o seu processo de reequilibrio financeiro, entendemos que devíamos dar um sinal aos empresários baixando a taxa em 0,5 por cento.

Depois pontualmente e em função do investimento, o município está disponível para negociar com os empresérios outro tipo de apoios que sejam necessários e importantes para que as empresas se fixem em Ansião. Terá a ver com a dimensão do investimento e com o número de postos de trabalho a criar, ou seja, serão análises vistas pontualmente e caso a caso.

 

TS - A gestão dinâmica do Parque Empresarial do Camporês é outra das apostas. De que forma pretende fazê-lo?

AJD – A dinamização do Parque Empresarial é também um dos vectores que passará pelo Gabinete do Empreendedor. Não lhe posso adiantar muito, até porque ainda estou a ver como e com quem será criado esse gabinete.

 

TS - O turismo é uma área cada vez mais valorizada. O que está previsto fazer para desenvolver turísticamente o concelho?

AJD – Estamos a estudar isso. Há a hipótese de fazer alguns investimentos e até candidaturas a fundos comunitários por forma a potenciar o concelho nessa área. Outra das questões que temos de analizar são as antigas escolas primárias que o município requalificou e dotou de condições para o alojamento rural. Parece-me que há aqui alguma ineficiência na oferta desses espaços. Neste momento, a Câmara Municipal tem duas escolas completamente recuperadas, que foram protocoladas com a Sicó Formação, e tem a escola do Marquinho, que está praticamente pronta. Portanto, iremos equacionar estes três espaços na vertente do turismo por forma a que fiquem à disponibilização das pessoas através de operadores turísticos, dando-os a conhecer para que tenham ocupação.

Depois não podemos esquecer os projectos da Rota das Carmelitas, dos Caminhos de Fátima e dos Caminhos de Santiago, que também queremos potenciar. A Rota das Carmelitas está a ser desenvolvida e penso que irá avançar até meados do próximo ano. Por outro lado, estamos a equacionar a hipótese do próprio município avançar com a construção de um albergue que sirva os peregrinos de Santiago.

 

TS - Está satisfeito com a actividade cultural e desportiva do concelho? O que mais pode ser feito nestas áreas?

AJD – Não estou completamente satisfeito. O município tem feito diversas actividades, mas parece-me que são algumas medidas a vulso, ou seja, fazem-se as actividades sem grande ligação entre elas e sem conseguirmos colocar Ansião no mapa. Nesse sentido, penso que devemos de criar um programa cultural e desportivo que se interligue entre si e seja marcante pelas acções que se fazem, pelo tipo de actividades que se realizam e que tenham alguma notoriedade. Quando organizamos as actividades temos de definir se são efectivamente para o concelho ou mais abrangentes e não nos podemos esquecer que essas actividades têm de ter projecção, tal como têm de ser suficientemente interessantes e valiosas para conseguir atrair público ao nosso território. Por isso, o nosso grande objectivo é interligar todas as actividades para que possam ser potenciadas, não só para o concelho, como também para toda a região.

De uma forma geral as actividades que já existem são para continuar. Estamos a preparar a passagem do ano, que foi uma actividade iniciada no ano passado pelo anterior executivo, e vamos mantê-la nos mesmo moldes e no mesmo sítio, até porque já tinha sido programada e entendemos que no primeiro ano correu muito bem. Ao fim de dois anos iremos calmamente avaliar se há condições para desenvolver e projectar mais esta iniciativa.

Relativamente à Feira dos Pinhões, que tem sido um momento importante de afirmação da marca Ansião, está a ser delineado e preparado nos mesmos moldes que tem sido promovido nos últimos anos e estamos já encetar contactos com a TVI para participar no evento. Não temos muito tempo, porque ele vai realizar-se no último fim-de-semana de Janeiro. Contudo, acho que a Feira dos Pinhões pode ainda ser potenciada e melhorada, incluindo outras áreas que não apenas aquelas onde se tem incidido, mas isso só irá acontecer na edição de 2019. Acho que podemos tornar esta feira mais abrangente, não se limitando à feira de produtos regionais, mas misturar uma componente cultural e introduzir uma vertente mais rural, trazendo outras áreas do mundo agrícola.

TS - Promover uma política voltada para a juventude é outro dos desígnios deste executivo. O que pretende fazer neste campo?

AJD – Pretendemos fazer regressar a Ansião todos os jovens que por razões profissionais ou familiares tiveram de sair do concelho, mas que hoje são reconhecidos em termos profissionais e artísticos. Queremos trazê-los a eventos futuros a organizar para que o concelho de Ansião também possa beneficiar com a sua experiência e conhecimento nas diferentes áreas. É um trabalho que vai demorar o seu tempo, porque em primeira análise teremos de identificar todos esses jovens. Queremos criar um Espaço Jovem onde a juventude se possa encontrar e partilhar as suas ideias para desenvolvermos uma série de actividades.

TS - A saúde é normalmente uma das áreas que mais preocupa as populações. Que trabalho prevê desenvolver nesta área?

AJD – Evidentemente que a saúde é um dos pilares essenciais de qualquer sociedade. Não é uma competência do município, mas não sabemos como será no futuro, uma vez que o Governo está a tentar transferir competências para as autarquias. Mas independentemente disso, cada vez mais os municípios têm de fazer um trabalho de prevenção dos cuidados primários de saúde e têm de estar preocupados com essas questões. Obviamente que aquele projecto interdisciplinar que referi anteriormente, com diversos técnicos de várias áreas é um caminho para conseguirmos garantir uma maior qualidade na prestação de serviços de saúde.

Não podemos esquecer que Ansião é um concelho com uma população envelhecida, por isso a Câmara Municipal deve facilitar em termos de deslocação ao Centro de Saúde, daí a intenção de criar uma rede de transportes para melhorar as condições de mobilidade essencialmente destas pessoas. A implementação de uma rede de transportes concelhia que facilite a mobilidade interfreguesias será um projecto para os próximos quatro anos, mas não garanto que seja já em 2018.

 

TS - Qual é a situação financeira da Câmara?

AJD – A situação financeira é estável e confortável, sem grandes riscos. Passados os tempos difíceis de 2013 a 2015, o executivo anterior fez um bom trabalho nessa área, mas evidentemente que a adesão ao PAEL e ao reequilibrio financeiro exigiu algum rigor financeiro. Neste momento o município encontra-se bem financeiramente, tem uma dívida total de 6,5 milhões de euros, que é uma dívida confortável e não cria grandes constrangimentos para os investimentos futuros.

 

TS - Qual a importância das juntas de freguesia na gestão do município?

AJD – Penso que as juntas de freguesia são muito importantes, porque é o primeiro local onde as pessoas vão reivindicar os seus problemas e, por isso, o órgão que mais pode fazer pelas pessoas, daí que, do meu ponto de vista, faça sentido robustecer financeiramente a capacidade das juntas de freguesia para poderem responder em primeira linha às necessidades das pessoas.