A Junta de Freguesia de Maçãs de D. Maria deverá ter sido das últimas do país a formar executivo. As dificuldades em chegar a acordo para constituir executivo prolongaram-se por várias semanas e só há sensivelmente um mês é que se conseguiu um entendimento. O eleito social-democrata, Eduardo Laranjeira, resistiu à constituição de um “executivo a três” por considerar que tal solução comprometia o desenvolvimento da freguesia. O candidato do CDS, Rafael Simões, que inicialmente defendia um executivo tripartido, não gostou do rumo das negociações que enveredaram por um caminho de acusações e ofensas pessoais, tendo optado por se coligar com o PSD. O acordo entre o PSD e o CDS mereceu a contestação do eleito do PS, Henrique Rosa, que considera que esta solução não respeita o sufrágio popular e acusa o CDS de “voltar com palavra atrás” e o PSD de “falta de cultura democrática”.

Depois do resultado eleitoral autárquico do dia 1 de Outubro se ter traduzido na conquista de quatro mandatos por parte do PSD e do PS e um para o CDS, com o candidato social-democrata a conseguir o maior número de votos, ficou instalada na Junta de Freguesia de Maçãs de D. Maria a dificuldade de constituir executivo.

Nas últimas eleições autárquicas, “os maçanenses votaram e decidiram retirar a maioria absoluta ao PSD”, demonstrando “um claro sinal de mudança”, considera o socialista Henrique Rosa, que acusa o eleito do PSD de “falta de cultura democrática” e que “não soube ou não quis interpretar os resultados eleitorais”.

Apesar de alguns defenderem uma governação a “três forças”, Eduardo Laranjeira manteve-se resistente à formação de um executivo com PS e CDS, centrando esforços na constituição de um executivo 2-1. Com o PS irredutível a outras possibilidades que não contemplassem um elemento de cada lista, foi com o CDS que o PSD chegou a entendimento para finalmente constituir executivo. Eduardo Laranjeira (PSD), Luís Carvalho (PSD) e Rafael Simões (CDS) constituem a equipa que pretende desenvolver e dinamizar a freguesia de Maçãs de D. Maria nos próximos quatro anos.

 

Acordo político

 

Depois de tentar chegar a um entendimento com os eleitos do CDS e do PS, os quais inicialmente mostraram “uma reacção negativa” para um executivo 2-1, defendendo antes “a presença das três forças políticas, o que discordei de imediato”, foi com o CDS que Eduardo Laranjeira conseguiu “um acordo político, validado pelas comissões políticas do PSD e do CDS”. Enquanto “da parte do PS houve sempre uma posição de rejeição”, a certa altura os partidos mais e menos votados tiveram uma “conversa aberta e franca” sobre “a maneira como a Junta de Freguesia iria actuar e os projectos a executar, sendo a grande maioria comum a ambos”, o que permitiu chegar a um consenso.

Contudo Henrique Rosa assegura que “o PS, desde a primeira hora, sempre se mostrou disponível para um entendimento convergente na formação do executivo, que no nosso entender só poderia ser tripartido (presidente do PSD, vogal do PS e outro do CDS)”, alegando que tal solução “garantia a estabilidade e seria bastante positivo para a freguesia”. Afinal, um executivo a três “traria um sinal de união e de democracia com o único objectivo de fazer mais e melhor por Maçãs de D. Maria”, uma vez que “estávamos dispostos a trabalhar em equipa sempre tendo em conta o superior interesse dos maçanenses”, pelo que possíveis “desentendimentos e ausência de acordos facilmente seriam ultrapassados com diálogo”.

Todavia, Eduardo Laranjeira defende que um executivo tripartido comprometia “claramente” o desenvolvimento de Maçãs de D. Maria nos próximos quatro anos, “pois se não houvesse acordo para o tipo de funcionamento e de projectos, quem perdia era a freguesia”. Em conversas com o partido e a presidente, então candidata à Câmara, Célia Marques, “estabelecemos determinados objectivos em termos de projectos que poderiam ficar em causa se não houvesse acordo no executivo da Junta”, frisou o social-democrata, certo de que “quem perdia era a freguesia”. Os projectos para “requalificação do centro da vila e da Praia Fluvial, obras tão ambicionadas”, são exemplos disso mesmo e “já estão a ser elaborados”.

 

Executivo empenhado

 

Sensivelmente um mês após formar equipa, o autarca de Maçãs realça o “bom relacionamento entre os três elementos deste executivo”, que todos os sábados têm visitado os lugares da freguesia “para nos inteirarmos dos problemas da população, numa tentativa de resolvermos as suas necessidades básicas” e ajudar a “melhorar o estado da freguesia”.

Também Rafael Simões faz um “balanço extremamente positivo” do trabalho que estão a desenvolver, argumentando que “estou a trabalhar com duas pessoas que têm os mesmos objectivos que eu e a minha equipa”. Enfim, a Junta de Freguesia de Maçãs de D. Maria recuperou a estabilidade de outros tempos, apresentando um executivo coeso, empenhado e dedicado.

Porém, o eleito pelo CDS não esquece os momentos difíceis que antecederam o acordo com o PSD. Sem qualquer experiência autárquica, Rafael Simões viu-se no meio de uma confusão que não era dele e para a qual não queria contribuir. Aceitou o convite para liderar a candidatura do CDS à Junta “precisamente para tentar fazer mais pela freguesia”, pois acredita que “Maçãs tem potencial para crescer e atrair pessoas”. “Depois de tantos anos de governação do PSD e de vermos a nossa freguesia muito parada, queríamos romper com o passado recente”, explicou o eleito pelo CDS, constatando que “a perda de maioria absoluta pelo PSD, criou uma situação muito delicada”, uma vez que o candidato social-democrata não aceitava um “executivo com as três forças”, uma solução que para os outros dois partidos era a que “melhor representava a vontade da população”.

Numa fase inicial, e após ter ouvido ambas as partes, o CDS decidiu votar ao lado do PS por um executivo a três, uma hipótese declinada desde logo por parte do presidente, que tem sempre a palavra final. Numa segunda Assembleia o CDS manteve-se ao lado dos socialistas, todavia a insatisfação com a evolução das negociações, que a determinada altura avançaram para acusações e ofensas pessoais, levaram a equipa liderada por Rafael Simões a tentar chegar a um entendimento com o PSD. “O PS estava a seguir por um caminho com o qual não nos identificávamos”, justificou Rafael Simões, adiantando que “apesar de sermos o partido menos votado fomos aquele que tentou chegar a entendimento com as duas partes, primeiro com o PS que não estava aberto a outras soluções” e depois com o PSD onde encontraram mais abertura para chegar a um consenso. “A comunidade não tem de sofrer com as consequências das brigas entre partidos”, defendeu, certo de que tomou a decisão certa, mesmo que isso tenha suscitado alguns ataques contra a sua pessoa.

Apesar do impasse em formar executivo, “não houve um grande prejuízo à população”, pois “os pequenos problemas foram sempre resolvidos, ainda que tivesse de custear do meu bolso algumas actividades e pedidos de apoio”, recorda Eduardo Laranjeira, salientando que “esse tempo está a ser recuperado, com um conjunto de obras já no terreno muito relevantes para a população”.

Outro entendimento tem Henrique Rosa, que considera que o impasse que se viveu nos últimos meses na freguesia “foi prejudicial” e “como é óbvio quem saiu prejudicado foi o povo”. “Mas este prejuízo não foi responsabilidade do PS”, sublinhou, argumentando que “sempre se mostrou disponível para negociar tanto com o PSD, como com o CDS, tendo como prioridade o bem-estar e o interesse dos maçanenses”.