Diz-se que o amor não tem idade. “Não conheço nenhuma outra razão para amar senão amar”, por isso “amo como o amor ama”, já dizia Fernando Pessoa. Contudo, a ideia de que há uma idade certa para tudo, impele-nos de pensar que dois idosos não possam continuar ou voltar a amar. Será que nos esquecemos de que no amor não há regras, prazo de validade ou limite de idade? Afinal, segundo o dicionário Priberam, o amor é um “sentimento intenso de atracção entre duas pessoas”, mas também um “sentimento que induz a aproximar, a proteger ou a conservar a pessoa pela qual se sente afeição ou atracção”. E se assim é, o amor pode acontecer em qualquer idade. Júlia e António são exemplos disso mesmo. Mas também Idalina e Manuel, bem como Maria e João (nomes fictícios).

Júlia tem 78 anos e António 82. Ela estava viúva há nove anos e ele há três. Ambos viviam na solidão e sentiam falta de uma companhia. Há cerca de dois anos conheceram-se num passeio de idosos promovido pelo município. Começaram a sair, até que um dia António propôs que “juntassem os trapinhos”. Contudo, ela estava reticente, tinha receio da reacção dos filhos. Foi então que falou com eles, que não viram com bons olhos a mãe juntar-se com outro homem. Não queriam outro no lugar do pai. Foi a nora de Júlia que convenceu os filhos a aceitar aquela relação. Ela estava sozinha e os filhos a dezenas de quilómetros de distância, era justo que quisesse alguém perto dela, que lhe fizesse companhia, que a protegesse, que cuidasse dela. Embora hesitantes, os filhos acabaram por aceitar e há mais de um ano que o casal está junto.

“A partir de uma determinada altura da nossa vida deixamos de pensar em nós, como se já tivéssemos vivido tudo a que tínhamos direito e começamos a dedicarmo-nos mais aos outros, sobretudo aos nossos filhos e netos, mas quando ficamos sozinhos, é que percebemos que nós também necessitamos de atenção e que também temos o direito de viver a nossa vida”, referiu Júlia, adiantando que só após perder o marido é que percebeu o quão importante era ter alguém ao seu lado para partilhar cada momento da vida. “Nós temos a família, os vizinhos e as pessoas amigas, mas chegamos à noite e não temos ninguém”, continuou a septuagenária, constatando que “quando estava sozinha, ia-me mais abaixo, sentia-me sem forças e não tinha motivação”. “Nunca me passou pela cabeça que um dia poderia vir a juntar-me com outro homem, mas as coisas foram acontecendo e hoje tenho a certeza que foi a melhor coisa para mim”. Porém, “na minha idade não vemos o amor como na juventude, agora amor é ter alguém ao nosso lado, é afecto, amizade e atenção”, defendeu Júlia, que reencontrou tudo isso ao lado de António.

 

Sempre juntos

 

A história de Idalina e Manuel é diferente. Estão casados há 46 anos e não se conseguem imaginar um sem o outro. “Até agora, só a doença é que nos separou e assim há-de ser até ao fim das nossas vidas”, confidenciou ao TERRAS DE SICÓ Idalina, que em perto de meio século de vida conjunta “as poucas noites que dormimos separados foi quando o Manuel esteve hospitalizado”. “Obviamente que num casamento nem tudo são rosas, há sempre altos e baixos, mas com harmonia e compreensão conseguimos ultrapassar os momentos menos bons”, refere aquela sexagenária, considerando que “passou-se do oito para o oitenta, por isso é que hoje há tantos divórcios”. “No meu tempo éramos oprimidos demais, agora têm liberdade a mais”, continuou ela, salientando que “nos dias de hoje há falta de compreensão nos casais e não há respeito um pelo outro”. “Para mim, o problema é essa coisa da igualdade de género”, porque “o homem sempre foi a trave num casamento e as coisas sempre funcionaram bem, agora os homens não se dão ao respeito e as mulheres é que vestem as calças lá em casa e quando as coisas não lhes correm de feição, mandam-nos à vida deles e seguem com a sua”. “Tenho duas filhas casadas, mas vêem as coisas de maneira completamente diferente do que eu, porque se um dia se chatearem não têm problema em pôr as malas deles à porta, até já disseram isso várias vezes”, disse, admitindo que “custa-me ouvir uma coisa dessas, eu jamais conseguiria dizer isso ao meu marido, é uma questão de respeito”. Então o significado de amor mudou? Mas afinal o que é o amor nesta fase da vida? “É companheirismo, apoio, atenção e compreensão”, respondeu de imediato Idalina, enaltecendo que esta foi, é e será a base do seu casamento.

Também Maria e João (nomes fictícios) já partilharam uma vida em conjunto e assim há-de continuar “até que a morte os separe”. “Um casamento feliz exige boa harmonia e confiança mútua”, considera João, que ao longo de perto de quatro décadas de casamento já passou por momentos bons e menos bons, mas em todos eles reinou o diálogo, a compreensão e o respeito. “Antigamente, os casais falavam e aceitavam mais aquilo que diziam um ao outro, hoje em dia quando há problemas cada um vai para seu lado e assim resolvem as coisas”, por isso é que dantes o matrimónio “era para a vida e agora é mais difícil manter um casamento”.